Cuidar é bonito.Mas cuidar demais quase nunca é amor — é sintoma. Na clínica, aparece uma dinâmica comum: o sujeito que se sacrifica, se esgota e faz tudo pelos outros esperando, inconscientemente, receber amor como recompensa.Melanie Klein nos mostra que esse excesso costuma nascer de culpa: a fantasia de que é preciso reparar algo o tempo todo. Já Lacan aponta a dívida imaginária: a crença de que, se eu der o meu melhor, o outro finalmente vai me escolher.Mas ninguém ama por obrigação. Ninguém devolve amor porque você se destruiu por ele. Isso não é vínculo, é dependência mascarada de cuidado. O gozo entra exatamente aí: no prazer doloroso de ser necessária, de controlar tudo, de acreditar que o sacrifício mantém o outro por perto.Só que o efeito real é o oposto: você se apaga, se perde e transforma o cuidado em moeda afetiva. O trabalho terapêutico é deslocar essa fantasia. É aprender que amor não se compra com exaustão. E que cuidado, para ser verdadeiro, não pode vir acompanhado de sofrimento. Cuidar é gesto. Cuidar demais é alerta. E esperar amor como pagamento… é só ilusão.